FÉ E LONGEVIDADE

         Estudo recente mostrou que, entre pessoas enfartaram 31% afirmaram que diminuíram significantemente o sentimento de fé, sendo que entre aqueles que não enfartaram o índice foi de apenas 9%.   

         Pessoas que seguirem alguma religião provavelmente viverão por mais tempo. Este conceito já é reconhecido pelos estudos gerontológicos há décadas e é sempre reforçado a cada nova pesquisa universitária. Merece ressaltar que certamente a atividade religiosa além da socialização, em sua maioria, traz recomendações para hábitos comportamentais mais saudáveis com combate a vícios, sendo estes possivelmente fatores contribuintes para maior longevidade neste segmento de indivíduos. Porém, não se pode deixar de relacionar que a religiosidade pode favorecer a maior capacidade de enfrentamento de adversidades e consequentemente maior estado de paz. Justifica-se lembrar a frase “quem vive em paz vive mais tempo” do escritor Baltazar Gracián.  Neste contexto vale destacar, um fato que muitas vezes não é percebido. O fato de que, nem sempre ter religião ou crença, é certeza de possuir boa dose de fé.  Vale afirmar que existe grande diferença entre crer e ter fé. Vale o nexo: “a fé é o instinto da acção” dito por Fernando Pessoa. Ter fé é crer e agir.

         Muita presunção por alguns. Pensarem que são merecedores de mudanças, de grandes milagres em suas vidas, somente por simplesmente executarem pedidos em orações. As orações, se feitas com convicção e boa reflexão, individualmente irão muitas vezes favorecer a surgimento de pequenos, frequentemente imperceptíveis, milagres de evolução. As pequenas, mas contínuas transformações que ocorrem de forma positiva em cada ser humano ao longo da vida, durante o processo de envelhecimento, podem ser resultado da renovação a cada dia do sentimento de fé. “A fé é uma conquista difícil, que exige combates diários para ser mantida” reforça a ideia o escritor Paulo Coelho. Quem durante a vida cultiva a fé, envelhecerá com maior satisfação e aceitação, sem temor da morte. Ter fé é muito mais que possuir uma religião. Ter fé é não se desesperar. É manter a criatividade, o equilíbrio, a temperança é construir com determinação. Biblicamente temos o ensinamento: “como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem obras” (Tiago 2,26). Assim, pode-se afirmar a fé é inerente ao ser humano e essencial a sua evolução.  

Toda tarefa executada com fé terá maior possibilidade de êxito. No estudo, no empreendimento, na construção, no plantio, no esporte, na luta, na guerra, no tratamento, na atividade física, na dieta ou qualquer outra necessidade de atenção a um compromisso.  Em vária situações da vida, quando as metas são almejadas com forte sentimento de fé, observa-se melhores resultados. Observa-se tal fato, de forma prática em várias situações de reabilitação que necessitam mais esforço, como nos tratamentos com fisioterapia ou tratamentos oncológicos. Na medicina pode-se constatar com frequência que os resultados são melhores nos pacientes que são mais colaboradores, demonstrando maior atitude de fé. 

Durante a vida, o ser humano sofre um evidente processo de envelhecimento físico, progressivo, com aumento da vulnerabilidade biológica até o surgimento da finitude, morte. Neste dinâmico e irreversível processo a única variável passível de fortalecimento é a espiritual. Quando positiva, a transformação espiritual irá favorecer um envelhecimento com maior capacidade de resolução das adversidades e aceitação de perdas. Essa evolução pode ser grande independente do tempo. Às vezes, em alguns momentos, já no leito de morte.

Morrer ou dar vida. Se o ser humano aprende, reproduz, aprimora e ainda, mais relevante, cria, certamente deixará um legado que favorecerá novas vidas ou vindas. Ter certeza e satisfação que parte de seu ser, de suas particularidades, de suas criatividades serão germinadas, dependerá do seu grau de fé. Somente a fé trará o conforto do sentimento de imortalidade do pensamento. Da perpetuação. Da paz. 

Aquele ser humano que apenas crê, morre pedindo, implorando pela vida. O inferno pode ser um estado de espírito, conceito de grandes líderes religiosos. Viver com fé é aprender a morrer. Aquele que envelhece adquirindo fé, morre agradecendo a experiência vivida. Finda sua existência em paz. Provavelmente encontrará a serenidade do “céu”. Encontrará o sentido da fé.

“Se em vida sementes de fé plantares, mesmo no inferno, paz colherás”

Antônio Claudio Neves

Geriatra e Gerontologo

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